O sexto pilar da autoestima: A integridade pessoal.Prof. Chafic Jbeili – www.chafic.com.br
Assisti
recentemente, como faço há muitos anos, palestra sobre meio ambiente e
educação ambiental. Achei fantástica a proposta didática na impecável
apresentação dos slides; os conceitos são realmente fascinantes e os
vídeos tão surpreendentes quanto comoventes. Fiquei encantado!
Acontece
que meu encantamento foi amenizado pelo próprio palestrante quando ao
final do evento o flagrei jogando o papel do chiclete no chão. Ao
perceber que eu vi o que ele havia feito sorriu sem graça dizendo: “este
papel é solúvel”. Percebi a falta de coerência entre discurso e
prática. Imperdoável para aquela pessoa, naquele dia, naquele momento. O
jovem professor pediu desculpas, apanhou o pedacinho de papel amassado e
o jogou no cesto de lixo. Mesmo assim, continuei a observá-lo
discretamente enquanto desmontava seus equipamentos e senti que ele
havia ficado envergonhado de si mesmo. Menos mal para o meio ambiente,
porém extremamente doloroso para o moço!
Pude perceber que aquele
palestrante autoconfiante e cheio de convicção durante a conferência
perdera muito de seu brilho depois do efêmero e vergonhoso episódio. Já
não olhava mais com tanta firmeza e confiança nos olhos das pessoas que
iam cumprimentá-lo pela excelente exposição. Ele havia perdido sua força
interior, pois sua autoestima acabara de receber um baque. Ele perdera
sua integridade pessoal naquele exato momento.
Um gigante sobre
educação ambiental que havia respondido brilhantemente diversas
perguntas polêmicas e difíceis sem se abalar, agora se encontrava
derrubado por um simples pedacinho de papel. Passou duas horas
aproximadamente combatendo ferrenhamente o descuido com o lixo pessoal;
encheu a tela com estatísticas estarrecedoras sobre o impacto ambiental
causado pelo lixo que produzimos; não poupou críticas às pessoas mal
educadas, às famílias que não fazem coleta seletiva de seu lixo,
excomungou governantes e até ONGs.
Enfim, aquele jovem havia
perdido momentaneamente e no sentido mais estrito da palavra, a sua
integridade pessoal. Deixou de ser inteiro quando seu ato contradisse
seu belo discurso, cujo teor expressava seus valores, princípios e
ideais. O moço desmontou-se, perdeu espaço dentro de si e diminuiu de
tamanho. Sua autoestima foi ferida, ficando comprometida no sexto
pilar!
De acordo com o Dr. Nathaniel Branden: “[...] quando nos
comportamos de forma conflitante com o que julgamos apropriado, perdemos
o respeito por nós mesmos”.
Sabe-se que a falta de integridade é
tão ou mais nociva do que qualquer censura ou rejeição externa, pois
contamina intensamente o senso de self. Pode-se evitar uma pessoa que
está sempre nos humilhando e ofendendo, mas dificilmente se pode evitar a
si mesmo em veladas sessões de autocensura. Por isto acredito que o
pior dos verdugos seja a própria consciência.
Nenhum ser humano tem poder maior de condenação do que a própria pessoa contra si mesma.
Não
é a toa que oro a Deus diariamente pedindo livramento dos inimigos, mas
principalmente do rigor de meu superego. Não obstante, os momentos que
comparo meu discurso com meus atos são importantes incubadoras de culpa,
pois desperta-se naquele exato momento da autocensura moral uma espécie
de juiz corregedor a que Freud intitulou superego, cujo moto maior é o
princípio do ideal, lugar do inconsciente onde estão armazenadas as
nossas referências mais sublimes juntamente com as mais elevadas
expectativas, depositadas em nós pela sociedade e por nossos entes
queridos ao longo de nosso desenvolvimento.
O murundu de ideais
perfeitos construídos desde a infância em nosso inconsciente afronta a
todo instante nossos impulsos mais pueris, idílicos, exercendo pressão
enlouquecedora, cujo ego precisa lançar mão dos mais eficazes mecanismos
de defesa para aliviar desconfortante compressão: Esta angústia do ego
causada pelo ultraje de nosso próprio ego moral ou superego. Um desses
mecanismos de defesa do ego é a projeção, cuja dinâmica consiste em
lançar no outro aquilo que condeno em mim. Portanto, quando reconheço
que fiz o que condeno o outro fazer, percebo-me isento de integridade e o
espírito desfalece instantaneamente.
Uma das características
menos toleráveis nas pessoas de modo geral e em especial naquelas
pessoas que sempre condenamos é a falsidade, a hipocrisia: palavra-chave
de toda crítica aos dissimulados políticos. Quem já não repetiu a frase
“fulano é mentiroso” ou ”deputado X é falso, enganador, um hipócrita!”.
Parece que ao amaldiçoar o outro por sua falta de integridade, tenta-se
expurgar de si mesmo esta tragédia interna que corrompe a alma e
contamina o espírito. Daí a repercussão avassaladora que tem a falta de
integridade sobre a autoestima.
Quem não tem pecado que atire a
primeira pedra! Quem nunca foi hipócrita ou mentiroso? A raiva e o ódio
que estava em Caim ou em Hitler também podem estar em mim, assim como a
generosidade de Abel e o amor de Cristo também podem estar em mim. Tenho
em mim o que há de melhor e o que há de pior na espécie humana. Ao
admitir isto me vejo com mais integridade, pois deixo de ser apenas quem
eu gostaria de ser (a melhor parte) para admitir ser quem eu realmente
sou (todas as partes). Tirar uma doença do CID – Código Internacional de
Doenças não a fará desaparecer, assim como refutar uma característica
repudiante não a eximirá de existir em mim.
Reprimo e expurgo
aquilo que julgo não prestar ou repudio em mim; mas afloro e evidencio o
que mais me agrada. Contudo, não me deixo iludir haver pleno controle
sobre estas forças interiores. Dado que as circunstâncias, as pessoas e o
meu estado geral complementam tais forças de controle a cada instante
que vivo. Em função do descontrole destas forças, posso perder ou
recuperar minha integridade pessoal a todo o momento.
Na
experiência do Dr. Nathaniel Branden, ao aplicar dinâmica onde
solicitava aos participantes que completasse a frase: “Eu seria mais
íntegro se...” então algumas respostas surgiram tais como: ...eu
cumprisse minhas promessas; ...eu admitisse minhas falhas, erros ou
inabilidades qualquer ao invés de mascará-las descaradamente. Assim, ser
íntegro é não rir de piadas das quais realmente não se acha graça
nenhuma; é admitir as qualidades e virtudes de um concorrente; é dizer
não quando se tem vontade; é não super faturar o recibo do reembolso; é
reconhecer a responsabilidade que tem sobre as pessoas; é não desviar
objetos do escritório para uso particular.
Enfim, na opinião de
cada participante ser íntegro é o mesmo que fazer a coisa certa,
empreendendo congruência entre aquilo que se fala e aquilo que se faz,
sabendo que as virtudes que a autoestima nos pede nem sempre são as
mesmas que a vida nos exige.
Aproveite para ler os pilares anteriores em www.chaficjbeili.blogspot.com
Abraços,
Prof. Chafic Jbeili
17 de Junho de 2011
Autor: Prof. Chafic Jbeili - www.unicead.com.br